"(...) -Como eu gosto de você?

Eu gosto de você do jeito que você se gosta".

O Mundo no Engenho... e o ENGENHO do Mundo

domingo, 2 de abril de 2017

Conversa (fiada) de mulher: prioridade versus vaidade e a inversão dos valores fundamentais.

F.C. Entardecer.2016

Se alguém quer vitrine: acabei de meter uma pedra nela...

Há quase vinte anos, uma das namoradas dos meus colegas o aguardava na recepção do local onde trabalhávamos. Estava de cara amarrada, olhando-me de soslaio como se quisesse me dizer alguma coisa que não parecia muito boa mas, não encontrava a oportunidade. Fiquei quieta por algum tempo. Contudo, incomodada com o silencio e sempre receptiva em relação ao "outro", acabei dando a ela essa chance. Era a primeira vez que a mulher me via, o colega já havia dito várias coisas a respeito dela, dentre as quais que era uma pessoa muito importante dentro do mundo da moda, então, perguntei algumas coisas acerca do trabalho que  exercia e, como ela continuava me olhar às avessas e respondendo com certa agressividade, tentei mudar de assunto e nada do colega aparecer! Num dado momento da conversa, passou a encarar. Já sem o que dizer, pois é difícil alguém lhe mirando fixamente, como se você tivesse cometido algum delito, elogiei a bolsa dela que, realmente, era muito bem feita e bonita. Foi então que muito satisfeita, ela encontrou a brecha que achou que precisava e me disse que eu teria que trabalhar a vida inteira e ainda assim não conseguiria comprar uma igual aquela… o que, na verdade, também não era a minha intenção. O fato é que essas coisas que não fazem parte do meu código de conduta momentaneamente me calam. Só pensei naquele momento, nas milhares de pessoas que morriam e morrem ainda de fome no mundo, nas mulheres que não tinham e não têm assistência médica, nas crianças que estavam e estão fora da escola por falta de salas de aula ou até de giz e quadro negro. Fiquei surpresa e senti vergonha só de imaginar toda desgraça e toda ilusão que uma simples bolsa poderia provocar! E eu me esforçando em ser gentil com aquilo? Sorri. Nesse momento o rapaz chegou. Ele inocente da ocorrência foi embora contente e eu fiquei com muita pena dele. Se sarcasmo ou ignorância pós-graduada, apenas um exemplo do que nunca Ser: já codificado no meu DNA. Alguns meses depois, porque nada sem conteúdo humano se sustenta, eles terminaram e ela deve ter chorado muito e se consolado sobre a sua bolsa impagável, ainda sem entender por que seu  dinheiro  não conseguiu a submissão completa daquela outra “mercadoria” de carne e osso. E claro, certamente as amigas da roda social devem ter ouvido o clássico eu “troquei”, como se troca um carro, uma casa, um objeto qualquer. Ele? Compreendi. Continuou sorridente: pois a “mercadoria” é que espreita o consumidor, lá da prateleira, na sua  “bela” embalagem...

Hoje, quando vejo o que está acontecendo com o nosso país, lembro-me da história da bolsa.   Lembro-me daquela senhora tão instruída e de caráter tão falho. Lembro-me de que há uma inversão de valores que há tempos se realiza, em que o fundamental passa a ser substituído pelo show pessoal. Particularmente, prefiro priorizar nessa época de crise aquilo que me constrói como pessoa e deixar a vaidade de lado. Ter para aparecer para alguém ou para um grupo não faz parte das minhas opções de vida. Se me será útil e cumprirá a sua função terei ou farei. Assim, às vezes, preciso ouvir  pessoas tentando me instruir a “ser assim” ou “assado” para conseguir “isto” ou “aquilo” atribuindo o que elas insinuam de meu “fracasso” à minha falta de “vaidade”.

A minha vaidade é diferente. Se adapta à minha responsabilidade. A minha vaidade se contenta com o simples, com o barato, com aquilo que não será cobiçado. Se molda as minhas possibilidades porque no final, as contas serão minhas e de mais ninguém. Aquilo que tenho, me é caro quando penso em todos aqueles que não tem nada: as crianças que se perderam ou perderam os pais na Síria, as da África que continuam famintas e esquecidas, aquelas que vivem nos confins do Brasil. Não é qualquer “pobreza” que me comove mais, pois já estou farta da pobreza fingida. Ou, da pobreza humana, que não escolhe o invólucro. Deste modo,  o que significa ter “vaidade”?  Dentro do meu ponto de vista é preservar o meu corpo sadio, preservar e estimular a minha mente, isto é,  trabalhar o que há por dentro de mim que é o que tenho de mais precioso  e a única coisa que me restará ou, restará para qualquer um. “Se o essencial é invisível aos olhos” ( Antoine de Saint -Exupery ) para mim, há de ser também para outras pessoas e, que o Universo, nos atraia: afinal, não somos “mercadorias” numa vitrine.



Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails

Google+ Followers

FaceMundo